Nariz escorrendo, febre e uma infinidade de idas ao pediatra: essa é a realidade para muitas famílias com crianças pequenas. A sensação de que um resfriado mal termina e outro já se aproxima é comum, especialmente quando os pequenos começam a frequentar creches e escolas, onde o convívio social se intensifica.
Mas até que ponto essa rotina de resfriados é normal? Quando o quadro de “viver gripado” merece uma atenção mais cuidadosa? A pediatra da Hapvida, Gorete Garcia, esclarece que infecções respiratórias frequentes não necessariamente indicam uma baixa imunidade na criança. Durante os primeiros anos de vida, o sistema imunológico ainda está em processo de amadurecimento, e o contato com diversos agentes infecciosos é natural nesse estágio.
“É comum que pais cheguem ao consultório preocupados, achando que a criança está sempre gripada. Muitas vezes, a situação se trata de uma sequência de infecções virais distintas. A frequência tende a aumentar após o início da vida escolar. É essencial observar não apenas quantas vezes a criança adoece, mas também a gravidade das infecções e seu processo de recuperação”, explica Gorete.
Por que a entrada na escola resulta em mais doenças?
A resposta está na exposição. Ao frequentar a creche ou a escola, as crianças passam mais tempo em contato próximo umas com as outras, compartilhando ambientes e objetos. Essa interação amplia a variedade de vírus e patógenos que podem afetá-las.
Assim, não é raro que episódios de resfriado se tornem quase constantes em certas fases. Um resfriado pode durar alguns dias e, logo após a recuperação, uma nova infecção pode se manifestar. Contudo, a frequência das doenças não é, por si só, um indicativo de problemas no sistema imunológico. “As crianças estão formando sua memória imunológica nos primeiros anos. A entrada em um ambiente coletivo aumenta essa exposição. Portanto, ter várias viroses não significa automaticamente ter imunodeficiência”, esclarece a pediatra.
Quando é necessário se preocupar com o ‘vive gripado’?
Mais do que contar a quantidade de episódios, é crucial observar como essas doenças se manifestam. Infecções graves, que são difíceis de tratar ou ocorrem repetidamente, podem justificar uma investigação mais minuciosa.
Alguns sinais que devem ser observados incluem pneumonias recorrentes, uso frequente de antibióticos, infecções persistentes, dificuldades para ganhar peso, internações repetidas e um histórico familiar de imunodeficiência. Especialistas em alergia e imunologia também consideram preocupantes infecções recorrentes de ouvido ou dos seios da face.
“Quando uma criança apresenta infecções mais severas, necessita ser internada com frequência ou não responde bem ao tratamento, é necessário reavaliar a situação. Nesses casos, o pediatra pode indicar exames ou encaminhar para um especialista”, afirma Gorete.
Exames são sempre necessários ao adoecer?
Não necessariamente. Uma série de resfriados em uma criança que cresce bem e se recupera entre os episódios geralmente não exige uma investigação imunológica extensa.
A decisão de realizar exames depende da história clínica, da natureza e frequência das infecções, da resposta aos tratamentos e de outros sinais observados pelo pediatra. “Exames não devem ser solicitados apenas porque a criança teve várias viroses. Precisamos entender o contexto. Se houver sinais de alerta, aí sim podemos iniciar uma investigação”, ressalta a médica.
Alimentos que aumentam a imunidade?
Outra dúvida comum é sobre alimentos, vitaminas ou suplementos que possam prevenir doenças. Contudo, não existe um único alimento que atue como um “reforço” imediato para o sistema imunológico. O que realmente contribui para a saúde é uma dieta equilibrada e variada, rica em nutrientes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatiza a importância de uma alimentação diversificada, que inclua frutas, verduras, legumes, grãos e proteínas, para o crescimento e a saúde infantil. “Não há um alimento milagroso para a imunidade. O que realmente conta é a soma: uma boa alimentação, sono de qualidade, atividade física, vacinação e acompanhamento médico”, ressalta Gorete.
O mesmo princípio se aplica a vitaminas e suplementos. O uso indiscriminado sem orientação médica não deve substituir a avaliação nutricional da criança.
“Suplementar sem necessidade não significa que a criança estará mais protegida. Vitaminas devem ser indicadas conforme a idade, a alimentação e as necessidades identificadas pelo profissional”, orienta.
Importância da vacinação e hábitos de prevenção
Mantê-las atualizadas é fundamental para proteger as crianças contra doenças infecciosas e suas complicações. Além disso, práticas simples de higiene, como lavar as mãos regularmente e ensinar a criança a cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar, ajudam a reduzir a transmissão de vírus respiratórios.
Uma rotina saudável também deve incluir sono adequado, alimentação equilibrada e atividade física apropriada. Para Gorete Garcia, a prioridade deve ser acompanhar a saúde da criança de forma holística. “Ficar doente algumas vezes é parte da infância e não significa, necessariamente, que há um problema de imunidade. O alerta surge quando as infecções fogem do padrão esperado, seja pela gravidade ou pela dificuldade de tratamento. O acompanhamento regular com o pediatra é crucial para diferenciar situações comuns de outras que merecem investigação”, conclui.
A sensação de que a criança “vive gripada” revela apenas uma parte da realidade. A forma como ela adoece, se recupera e cresce entre as infecções são informações essenciais para entender quando a situação é normal e quando é hora de buscar ajuda especializada.

