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‘Sober Curious’ fala de parar de beber como uma tendência – 28/08/2026 – Equilíbrio

suportem31 by suportem31
28/08/2026
in Bem-estar
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‘Sober Curious’ fala de parar de beber como uma tendência – 28/08/2026 – Equilíbrio
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Li “Movimento Sober Curious”, de Ruby Warrington, do lugar pouco charmoso de quem é alcoólatra. Não sou uma pessoa apenas curiosa sobre a sobriedade. Para mim, ficar sem beber não é uma experiência temporária, um desafio de 30 dias nem uma oportunidade de alcançar mais produtividade, beleza ou clareza mental. É uma questão de sobrevivência.

O livro propõe que o leitor examine sua relação com o álcool e perceba que não é necessário chegar ao fundo do poço para questionar o hábito de beber.

A ideia tem méritos evidentes. Vivemos em uma sociedade na qual o álcool acompanha comemorações, encontros amorosos, reuniões profissionais, frustrações e até práticas de autocuidado.

Recusar uma taça ainda exige explicações. Nesse sentido, Warrington acerta ao confrontar a normalização da bebida e ao lembrar que ninguém precisa receber um diagnóstico para decidir parar.

O problema começa quando a sobriedade é apresentada com a linguagem sedutora das tendências de bem-estar. Em “Movimento Sober Curious”, abandonar o álcool parece, por vezes, integrar o mesmo universo das dietas da moda, dos retiros espirituais e das rotinas matinais cuidadosamente fotografadas.

Dormir melhor, emagrecer, ter uma pele mais bonita e trabalhar com mais eficiência são benefícios possíveis. Para uma alcoólatra, porém, essa embalagem soa superficial —e até cruel.

Eu não parei de beber para acordar disposta e tomar suco verde. Parei porque o álcool estava destruindo minha vida.

A bebida não era um hábito que eu pudesse observar com curiosidade e depois decidir se queria ou não manter. Era uma obsessão, uma necessidade e uma doença marcada por perda de controle. A sobriedade, nesse contexto, não é um acessório para uma vida mais equilibrada. É um trabalho diário, frequentemente doloroso, que envolve medo, vergonha, reparação e ajuda.

Ao transformar a abstinência em escolha de estilo de vida, o movimento “sober curious” corre o risco de apagar justamente as pessoas para quem beber deixou de ser uma escolha.

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Existe uma diferença enorme entre experimentar um mês sem vinho e enfrentar uma dependência. Isso não torna a primeira experiência ilegítima, mas torna perigoso falar das duas como se fossem pontos próximos de uma mesma jornada.

Também me incomoda o privilégio implícito em boa parte desse discurso. É mais fácil transformar a sobriedade em projeto de autoconhecimento quando se dispõe de tempo, dinheiro, apoio emocional e acesso a terapias.

Para muitas pessoas, a dependência vem acompanhada de desemprego, violência, adoecimento, solidão e falta de assistência. Nesses casos, parar de beber não cabe em uma fotografia luminosa acompanhada por uma frase inspiradora.

Warrington escreve de maneira acessível e pode ajudar leitores que desconfiam da própria relação com o álcool, mas ainda resistem à ideia de mudança. O livro abre uma porta importante. Minha ressalva é que, do outro lado dessa porta, nem sempre existe o cenário elegante prometido pelo mercado da sobriedade. Às vezes há apenas uma pessoa assustada, tentando atravessar mais um dia sem beber.

Talvez o maior limite de “Movimento Sober Curious” esteja no próprio título. A curiosidade é confortável porque permite recuar. O alcoolismo, não.

Quem pode experimentar a sobriedade e depois voltar a beber moderadamente tem uma liberdade que eu não tenho. Não digo isso com ressentimento, mas com a objetividade que minha experiência me ensinou.

Prefiro uma conversa sobre álcool menos bonita e mais honesta. Uma conversa capaz de acolher tanto quem deseja beber menos quanto quem não pode beber nunca mais —sem transformar uma doença em moda ou a recuperação em produto.

Para mim, a sobriedade não é tendência. É necessidade. E essa diferença não deveria ser tratada como mero detalhe editorial.



Fonte:

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